Terra da Liberdade ou Terra do Terror: a democracia em estado de medo

A crônica fala sobre um país onde o controle das fronteiras deixou de ser regra e passou a ser medo. Ao evocar imagens de crianças algemadas, famílias presas à porta de hospitais e o pavor que atravessa escolas e casas, o texto reflete sobre a desumanização promovida pelo Estado, o desgaste silencioso dos direitos civis e a normalização de práticas autoritárias que colocam em risco a própria ideia de democracia.

LISDEILI NOBBRE

1/27/20263 min read

Todo país tem legitimidade para organizar suas fronteiras. Isso é ponto pacífico. Nenhuma sociedade se sustenta sem regras mínimas de ingresso, permanência e convivência. O problema começa quando o controle deixa de ser política pública e passa a ser instrumento de medo. Quando a lei abandona o papel de ordenar e assume o papel de assustar, algo muito mais grave está em curso.

O que se vê hoje nos Estados Unidos, especialmente em estados como Minnesota, não se parece com política migratória. Parece uma engrenagem de terror cotidiano. Não é o controle da fronteira — é a fronteira invadindo escolas, hospitais, casas e rotinas. Crianças de cinco anos algemadas não representam risco à soberania nacional. Famílias presas ao buscar atendimento médico não ameaçam a segurança pública. Pais retirados de circulação enquanto seus filhos estão na escola não são criminosos perigosos. São vidas comuns atravessadas pela brutalidade do Estado.

Quando uma mãe deixa de levar o filho ao hospital por medo de ser presa, o Estado deixou de proteger. Quando uma criança aprende cedo demais a temer carros oficiais, sirenes e uniformes, a democracia falhou em sua função mais básica: garantir um mínimo de segurança civil. O medo, quando institucionalizado, não distingue documentos, sotaques ou cores. Ele se espalha. Ele contamina. Ele passa a atingir também quem se acreditava protegido.

Não é por acaso que cidadãos americanos começaram a esconder imigrantes em suas casas. Esse gesto não nasce da ilegalidade, mas da consciência histórica. Em algum lugar da memória coletiva, todos reconhecem o cheiro de algo que já aconteceu antes. Houve um tempo em que judeus eram escondidos em porões, sótãos e igrejas. Não porque fossem culpados de algo, mas porque o Estado decidiu que suas existências eram um problema a ser eliminado do espaço público.

A lógica se repete, ainda que o discurso mude. Hoje, não se fala em raça superior. Fala-se em “segurança”, “ordem”, “proteção da nação”. Mas o método é o mesmo: desumanizar para legitimar a violência. Quando o Estado passa a tratar pessoas como riscos sanitários, como corpos indesejáveis, como algo a ser removido, estamos diante de uma política de eugenia social — moderna, burocratizada, armada e travestida de legalidade.

Essa política não destrói apenas os imigrantes. Ela corrói a própria vida civil americana. Uma sociedade que vive sob medo deixa de circular, de consumir, de confiar, de produzir. O terror não organiza o Estado — ele o desestrutura por dentro. A economia sente, as relações sociais se rompem, a ideia de comunidade desaparece.

O paradoxo é cruel: a mesma democracia que garante ampla liberdade para portar armas não consegue garantir o direito elementar de existir sem pânico. A mesma Constituição que celebra liberdades individuais permite, na prática, que agentes entrem em residências sem mandado, suspendam garantias e substituam o devido processo pela força. A exceção vira regra. O abuso vira rotina.

Não se trata de uma política migratória dura. Trata-se de práticas de inspiração fascista, baseadas na intimidação, na violência simbólica e real, na normalização da exceção. E a história é clara: democracias raramente morrem de uma vez. Elas sangram lentamente. Primeiro nos corpos considerados descartáveis. Depois na consciência coletiva. Por fim, em todos.

O erro não está em controlar fronteiras.
O erro está em transformar o medo em método de governo — e fingir que n
ão sabemos onde isso termina.