O Trio Elétrico da Boa Gestão.
“O problema não está na festa, mas na leitura política dos números: multidões viram propaganda, recordes viram capital eleitoral e a gestão passa a ser medida por aplausos, não por resultados reais.”
Lisdeili Nobre
1/18/20262 min read


Carnaval é uma festa maravilhosa. Representa a cultura brasileira, democrática, uma manifestação genuína da expressão popular em todas as suas dimensões. Reúne milhares — às vezes milhões — de pessoas nas capitais e nos interiores do Brasil. Move a economia, gera empregos temporários, aquece o comércio e, sim, é serviço essencial. Porque, afinal, quem não quer ser feliz? A felicidade também é ingrediente da vida humana.
Claro, leitor, não vou discordar das prefeituras investirem em grandes atrações para atrair foliões — e eleitores. O povo merece. Vive, trabalha, sofre e também precisa se entreter. Não há pecado algum em celebrar. O problema não está no trio elétrico, no palco, no brilho ou na música.
A minha crítica mora em outro endereço.
Mora na leitura equivocada — e convenientemente inconsciente — desses grandes números. Prefeitura anuncia: “reunimos milhares”, “batemos recorde”, “nunca se viu nada igual”. A imprensa ecoa, a consciência popular aplaude, e pronto: mede-se ali uma suposta força política, um termômetro eleitoral para 2026, agora potencializado por técnicas refinadas de redes sociais, drones, vídeos editados e slogans emocionais.
O número de pessoas se divertindo importa, claro. Mas está longe de ser o mais importante.
Porque essa purpurina e essa lanternagem de brilho também servem para ofuscar outros números — aqueles que prefeitos não gostam de exibir. Os números da saúde sem investimento, da educação precarizada, do saneamento básico inexistente, da sustentabilidade ignorada, da infraestrutura urbana remendada. Sobretudo, os números da transparência do dinheiro público.
Esses dados não desfilam em bloco. Não têm abadá, não sobem no trio, não puxam coro. A população só os conhece pelas consequências: quando falta atendimento médico, quando a escola não funciona, quando a rua alaga, quando o emprego não vem, quando a segurança falha.
Esses números não têm Carnaval.
Mas talvez seja isso mesmo. Muito do nosso gosto brasileiro é pela festa que distrai, não pela conta que revela. E enquanto os dados estruturais seguem fora do desfile, a multidão canta feliz, convencida de que número de foliões também é número de boa gestão.
Então vamos. Puxa o bloco. Chama Léo Santana, Ivete Sangalo, solta o confete.
Só não confunda aplauso com política pública.
Lisdeili Nobre é escritora, pesquisadora e comunicadora. Atua na interface entre política, cultura, gênero e democracia, utilizando a crônica como ferramenta crítica para analisar o cotidiano, o poder e as contradições da vida pública brasileira. Seus textos combinam ironia, sensibilidade social e compromisso com a participação das mulheres nos espaços de decisão, transitando entre o jornalístico, o literário e o ensaístico.
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