O dia em que entendi o sentimento de Justiça
“Hoje eu entendi o que é sentir justiça — não na teoria, mas na vida, no luto e na memória de quem se foi pela mentira.”
Lisdeili Nobre
11/25/20252 min read


Hoje, pela primeira vez na vida, senti o que tantas famílias brasileiras descrevem com voz embargada quando um processo finalmente termina: o efeito íntimo da justiça.
Não aquele que eu explico em sala de aula, entre teoria do delito, tipicidade e efeitos secundários da condenação. Não o que cabe nos livros, nas ementas, nas lições de Zaffaroni.
Falo do outro — o que atravessa o peito.
Nunca tive alguém da minha família vítima de um crime comum. Por isso, sempre me pareceu distante esse “sentimento de justiça” que surge quando uma sentença transita em julgado.
Até hoje.
Quando anunciaram a condenação definitiva do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, algo se moveu dentro de mim. Um fio invisível amarrou teoria e vida real.
Pela primeira vez, compreendi na carne o que é ver o Direito Penal cumprir sua função simbólica e concreta: dizer à sociedade que há limites, sobretudo quando quem os rompe é quem deveria protegê-los.
Na minha família, o luto não veio do crime, mas da omissão.
Meu sogro, José Dantas, morreu de Covid-19.
Meses atrás, minha sogra também se foi — não suportou o luto, não encontrou mais chão depois de perder o companheiro de vida.
Uma semana depois da morte dele, ligaram avisando que sua vacina estava disponível.
E a gente nunca deixou de se perguntar: e se?
E se o chefe da Nação não tivesse sabotado a ciência?
E se não tivesse desacreditado a vacina?
E se não tivesse tratado a pandemia como palanque?
E se, em vez de cloroquina e ofensas à OMS, tivéssemos tido coordenação, verdade, cuidado?
Não são perguntas jurídicas — são perguntas humanas.
E, por trás delas, um país inteiro.
Porque não foi só nossa família.
Um amigo de Uberlândia, influenciado diariamente pelo negacionismo presidencial, morreu.
O pai dele, também.
A mãe, idem. Todos morreram de Covid-19
O vizinho da minha rua acreditou que cloroquina dava imunidade — morreu de feridas no fígado pela ingestão excessiva.
Meu tio recusou internação, convencido de que a doença era “leve”, porque assim repetia o presidente. Morreu poucos dias depois.
Se você é da minha geração, provavelmente também tem uma história dessas.
Porque a desinformação que escorreu do Palácio do Planalto não era discurso: era política de morte.
E é por isso que a condenação de hoje tem um peso diferente.
Não é vingança.
Não é euforia.
É reconhecimento:
O Estado, finalmente, diz em voz alta aquilo que o país inteiro sussurrou entre lágrimas — o chefe da Nação fomentou mentiras que custaram vidas.
No Direito Penal, ensinamos que o tipo penal se subsume ao fato.
Mas, na vida real, são as pessoas que se subsumem às consequências.
O trânsito em julgado de hoje não devolve vidas.
Não sela feridas.
Mas diz ao Brasil que quem espalha desinformação, manipula o medo e sabota políticas públicas essenciais responde por isso.
E eu, como professora, mulher, cidadã e alguém que enterrou gente amada, finalmente entendi o que significa sentir justiça.
É uma sensação pequena, triste, mas necessária —
como fechar uma porta que nunca deveria ter sido aberta.
Lisdeili Nobre é professora de Direito Penal, escritora, cronista e pesquisadora em Criminologia. Mulher de voz pública, escreve sobre justiça, política, direitos humanos e as histórias que atravessam a vida real.
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