No enlatado jurídico brasileiro, o patriarcado permanece em conserva.
No enlatado jurídico brasileiro, conserva-se o patriarcado porque ele dá menos trabalho. Ele organiza o mundo em hierarquias previsíveis: o homem decide, a mulher suporta; o adulto explica, a menina amadurece à força; a família preserva, mesmo que a custo do futuro de alguém.
Lisdeili Nobre
2/21/20262 min read


No Brasil, conserva-se quase tudo.
Conserva-se milho, ervilha, discurso moral e, principalmente, o patriarcado.
Ele vem em lata grossa, com rótulo dourado: Família Tradicional Brasileira. Dizem que é nela que se aprendem valores como sacrifício, perdão, serviço e permanência. Palavras bonitas. Redondas. Fotogênicas.
Mas, para quem estuda gênero, sabe-se: não é crítica à família — qualquer que seja seu formato — que incomoda os conservadores. O que incomoda é tirar o lacre da opressão que muitas vezes foi vendida como virtude.
A escola de samba Acadêmicos de Niterói ousou lembrar disso na avenida. E bastou. O desfile virou ameaça à “moral econômica e social” do país. Curioso como uma alegoria de carnaval desestabiliza mais que desigualdade salarial, violência doméstica ou ausência de creche.
A lata treme quando a mulher não cabe dentro dela.
Quando uma influenciadora como Virginia Fonseca atravessa espaços que antes não lhe eram destinados, os fiscais da moral correm para medir sua postura, seu sorriso, sua ousadia. Mulher que aparece demais incomoda. Mulher que prospera sem pedir licença azeda a conserva.
O problema nunca foi a família.
O problema é quando “resiliência” significa suportar em silêncio.
Quando “sacrifício” significa naturalizar a dor.
Quando “permanência” significa impedir a ruptura com ciclos de violência.
E, nesta semana, o Judiciário mostrou que a lata ainda está bem fechada.
Mesmo diante de leis claras e jurisprudência consolidada, ainda surgem decisões que relativizam o que a própria legislação define como proteção integral à infância. Ainda há quem trate vulnerabilidade como escolha. Ainda há quem chame de amor o que a lei chama de crime.
O Código muda. A Constituição fala em dignidade. A doutrina é explícita.
Mas alguns intérpretes insistem em conservar o passado como se fosse patrimônio cultural.
É curioso: quando o corpo é feminino, sempre aparece uma tese criativa.
Quando é menina, surge a dúvida.
Quando é mulher, surge a suspeita.
No enlatado jurídico brasileiro, conserva-se o patriarcado porque ele dá menos trabalho. Ele organiza o mundo em hierarquias previsíveis: o homem decide, a mulher suporta; o adulto explica, a menina amadurece à força; a família preserva, mesmo que a custo do futuro de alguém.
Mas há algo que não se conserva.
A voz das mulheres.
Ela escapa pela fresta da lata.
Ela samba na avenida.
Ela estuda, interpreta, denuncia, ocupa tribunais, escreve decisões, produz ciência.
E toda vez que uma mulher ocupa o espaço público — seja na Sapucaí, nas redes sociais ou na magistratura — o barulho não é de desordem.
É o som da lata enferrujando.
Lisdeili Nobre é escritora, pesquisadora das Ciências Criminais e das Políticas Públicas, doutoranda em Políticas Sociais e Cidadania e professora de Direito. Atua também como Delegada de Polícia Civil e consultora em desenvolvimento de políticas públicas. Cronista atenta aos movimentos da sociedade brasileira, escreve sobre gênero, poder e justiça com linguagem que une sensibilidade literária e reflexão crítica. Acredita na ocupação dos espaços públicos pelas mulheres como exercício permanente de cidadania.
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