Ingenuidade da Política Feminina: Convocadas para a foto, silenciadas na decisão
“Quando a presença feminina é celebrada, mas seu poder é negado — e a política se revela um palco onde a hegemonia masculina continua dirigindo a peça.”
Lisdeili Nobre
12/3/20252 min read


Ainda somos um pouco ingênuas — e digo “somos” porque nenhuma de nós atravessa o território da política ilesa dessa ilusão delicada. Acreditamos, vez ou outra, que partidos, siglas, federações e diretórios estão finalmente abrindo alas para nossa entrada. Que a foto do encontro feminino, o coffee break cor-de-rosa e o banner com palavras como inclusão, empoderamento e protagonismo são sinais de que a porta se abriu por igual para todas nós.
Mas não, minha amiga. Aqui o machismo não chega com bota suja — chega de mãos limpas, sorriso educado e voz democrática. Ele não grita: sussurra. Não proíbe: “aconselha”. Não veta: orienta. É o patriarcado em sua forma mais sofisticada, velado e cordial, pronto para se disfarçar de aliado.
bell hooks, que escreveu para além da raça e para dentro da alma política de qualquer mulher, já advertia: nem toda inclusão é abertura; às vezes é só decoração. Às vezes, é só mão de obra emocional gratuita para sustentar velhas estruturas: a maquiagem progressista das oligarquias.
Nos espaços partidários, criam-se atmosferas cuidadosamente ambientadas — rodas de conversa, workshops, mesas redondas onde as mulheres falam de si, de suas lutas e de suas dores. E é verdade: para muitas, esses encontros são porta de entrada. Filiação, primeiros passos, talvez até um cargo eletivo.
Mas o problema não está na porta. Está no que há atrás dela.
Há mulheres que chegam ao poder não porque romperam muros, mas porque os muros decidiram usá-las como tijolo. São escolhidas quando a parentela masculina esgota seus turnos de mandato. São esposas, filhas, sobrinhas — peças substitutas num jogo que permanece o mesmo. Continuam a representar o patriarcado, mesmo que assinando como vereadora, vice-prefeita ou deputada.
E não se engane: essas mulheres também sofrem violência política — só que menos. Porque o sistema sabe proteger as suas, desde que continuem sendo dele.
Já aquelas que chegam pela força do próprio nome, da própria caminhada, da própria autonomia… essas descobrem rapidamente o que hooks chamou de colonização das mentes. São excluídas das decisões, pressionadas a assinar atos que nunca decidiram, coagidas a participar de esquemas que não controlam. E quando resistem, são descartadas com a elegância cruel reservada às mulheres que ousam pensar por si mesmas.
É ingênuo imaginar que cotas e reuniões femininas, por si só, promovem inclusão real. As leis são necessárias, mas não suficientes. A estrutura de poder não se dobra apenas por imposição normativa.
O que falta é consciência — a consciência dolorosa e libertadora de que fomos formadas dentro de uma cultura que ainda nos convence de que precisamos de um homem ao lado para validar nossa presença. Um marido, um líder partidário, um padrinho político.
Mas não precisamos.
Suba ao palanque — mas suba só.
Sem homem a tiracolo, sem avalista masculino, sem muleta simbólica.
Suba como mulher que sabe: o lugar é seu não porque deixaram, mas porque você chegou.
E talvez, só talvez, quando entendermos isso, a sororidade deixará de ser frágil.
E a política deixará de ser ingênua.
Nós também.
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