DE MADRUGADA — NÃO SABE CONVIVER COM A LUZ
O poder que age na sombra revela o medo que tem da luz.
Lisdeili Nobre
12/10/20252 min read


Ontem foi mais um daqueles dias que confirmam o óbvio ululante: a democracia brasileira vive sequestrada em plena luz, mesmo quando fingem que tudo acontece na escuridão. Não há metáfora capaz de suavizar o que se tornou rotina: enquanto o país dorme, uma minoria — essencialmente branca, masculina e eternamente instalada nas poltronas estofadas do poder — redige, negocia e vota como se a nação fosse um curral de propriedade particular.
Dizem que querem pacificar o país. O verbo, repetido como um mantra cínico, não esconde a ironia: pacificar depois de terem alimentado, nos últimos anos, a máquina da extrema direita — com seu ódio fabricado, sua pedagogia da violência, suas ameaças às instituições e sua campanha sistemática de destruição da realidade. Agora falam em paz, enquanto aproveitam a madrugada, quando o Brasil repousa, para empurrar reformas e projetos de lei que nenhum cidadão pediu e que nenhuma democracia madura aceitaria.
Sob o disfarce da noite, reformas do Código Penal e do Processo Penal surgem como peças de engenharia jurídica destinadas menos ao combate à violência e mais à proteção de aliados, ao apagamento de rastros e à blindagem da família Bolsonaro que transformaram fake news em método e manipulação em projeto de poder. Nada ali serve ao enfrentamento da violência real; tudo serve ao rearranjo da impunidade.
E, para completar o escárnio, o Congresso resolve que transparência é opcional: corta o sinal da TV Câmara, bloqueia redes sociais de parlamentares opositores, agride jornalistas e coloca em votação a cassação de Glauber Braga por denunciar o orçamento secreto — aquele pacto espúrio que fez do Centrão se manter a ala prostituída da política nacional.
De madrugada, tudo é possível — porque esse Congresso não sabe conviver com a luz.
Foi um espetáculo vergonhoso, mas não surpreendente.
A noite é o ambiente preferido de quem teme o olhar do povo.
A sombra protege vícios, acoberta intenções e sustenta manobras.
Mas o dia chega. Sempre chega.
E quando a luz invade, revela aquilo que tentaram ocultar: a democracia que lutamos para reconstruir continua sendo atacada, silenciosamente, por dentro.
Por isso, seguir vigilante é mais que um dever: é resistência.
Se eles apostam na escuridão, nós respondemos com claridade — porque o Brasil que queremos não teme o sol, e o sol, esse, não se apaga por decreto.
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