“Chore por mim”, “volta pra mim”, “ligue pra mim”: quando o amor vira imperativo.
O sertanejo romântico universaliza a dor masculina e silencia a voz feminina, transformando amor em obrigação e permanência em virtude.
Lisdeili Nobre
12/21/20253 min read


A polêmica recente envolvendo Zezé di Camargo, ao criticar o SBT por convidar Luiz Inácio Lula da Silva para o lançamento de um telejornal e afirmar que as filhas de Silvio Santos estariam “se prostituindo”, não pode ser lida como um tropeço isolado de linguagem nem como um excesso emocional momentâneo. O pedido posterior de desculpas pelo uso do termo tampouco encerra a discussão. O episódio revela algo mais profundo, mais antigo e mais estrutural: um sistema de valores amplamente compartilhado, naturalizado e reiterado por uma tradição cultural específica — a música sertaneja brasileira.
Não se trata, aqui, de julgar um artista individualmente. Trata-se de compreender o universo simbólico do qual ele é porta-voz e beneficiário. A música sertaneja, sobretudo em sua vertente romântica, construiu ao longo de décadas uma gramática emocional que tem no patriarcado seu eixo estruturante. É um repertório que dialoga com o conservadorismo social, muitas vezes alinhado — de forma explícita ou velada — a projetos políticos autoritários e moralizantes, como os que ganharam força no bolsonarismo. Esse alinhamento não nasce do acaso: ele se ancora em uma visão de mundo que hierarquiza gênero, naturaliza desigualdades e transforma a autonomia feminina em ameaça.
O sertanejo romântico deixou de narrar o trabalhador explorado, o sertão desigual ou a dureza da vida rural. Em seu lugar, consolidou-se a estética do sofrimento masculino. O homem que canta é o homem ferido, abandonado, traído. É ele quem sofre, quem pede, quem define o tempo do perdão e do retorno. A mulher surge como destinatária da súplica — “chore por mim”, “ligue pra mim”, “volta pra mim” — e, ao mesmo tempo, como causa da dor. Sua voz não aparece. Sua decisão não é narrada. Sua autonomia não é reconhecida como legítima.
O efeito simbólico é contundente: a experiência emocional masculina é universalizada, transformada em medida do amor; a experiência feminina é secundarizada, silenciada ou moralizada. O amor, nessas narrativas, não é encontro entre sujeitos, mas permanência exigida. Não é escolha, mas obrigação afetiva. O sofrimento do homem funciona como capital moral, como argumento suficiente para exigir o retorno da mulher.
Esse repertório dialoga diretamente com o ciclo da violência doméstica, ainda que de forma simbólica. O amor feminino é constantemente testado pela renúncia: suportar o abuso de álcool, as traições reiteradas, o descaso, a agressividade, a violência. A dor masculina é romantizada, culturalizada, legitimada. O pedido de retorno aparece como inevitável. E quando a mulher não cede, ela deixa de ser sujeito e passa a ser erro: orgulhosa, ingrata, fria, cruel.
O abandono, nessas letras, não é liberdade. É desordem moral. É falha feminina. É incapacidade de cumprir o papel esperado no lar e na família. A autonomia da mulher é tratada como uma afronta direta à masculinidade tradicional. Por isso, a ruptura não gera reflexão, mas punição simbólica.
É nesse ponto que a fala pública de Zezé di Camargo se conecta organicamente a esse imaginário. Ao afirmar que decisões empresariais e editoriais tomadas por mulheres seriam uma forma de “prostituição”, ele não apenas ofende: ele aciona um mecanismo clássico do patriarcado. Quando a mulher decide fora do padrão esperado, sua escolha não é política, profissional ou estratégica — ela é sexualizada, desmoralizada, tratada como venda do próprio corpo ou da própria honra. O que não se encaixa na ordem patriarcal é rotulado como amoral, desleal, desviado.
A mensagem implícita é clara e antiga: quem não obedece, se corrompe. Quem não se submete, se vende. Quem rompe, merece reprovação pública.
A cultura sertaneja construiu o amor como pertencimento e direito adquirido, não como relação entre sujeitos autônomos. O vínculo afetivo é apresentado como algo que deve permanecer, independentemente da vontade feminina. A mulher que rompe ameaça não apenas o ego masculino, mas toda a ordem simbólica que sustenta essa masculinidade. Por isso, a reação nunca é diálogo — é controle, culpa, humilhação simbólica.
A crise não está em uma palavra mal escolhida nem se resolve com um pedido de desculpas protocolar. Ela expõe a dificuldade de uma tradição cultural em lidar com a autonomia feminina, com a pluralidade política e com a erosão de padrões patriarcais historicamente naturalizados. A música sertaneja, enquanto fenômeno cultural de massa, não apenas reflete esses valores — ela os ensina, os normaliza, os reproduz cotidianamente.
E é por isso que precisa ser criticada. Não para silenciar, mas para revelar. Porque quando o romantismo exige submissão, o amor deixa de ser afeto e passa a ser controle.
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