Câmara Municipal: repartição, balcão e despachante do governo municipal
Crônica sobre a subserviência do Legislativo e a encenação da democracia local.
Lisdeili Nobre
1/31/20262 min read


Em uma terra não muito distante — dessas que aparecem nos mapas da ganância, mas somem dos mapas da cidadania — a separação dos poderes virou lenda urbana.
Já não se conta para crianças, porque ninguém acredita.
Ali, a Câmara Municipal há tempos deixou de ser Poder. Virou repartição, balcão, despachante do governo municipal. Um anexo mal disfarçado do gabinete do prefeito, onde carimbos executivos substituem debates genuinamente legislativos.
Os vereadores, eleitos para representar o povo, têm seus poderes esvaziados não por força maior, mas por incompetência técnica, por desconhecimento das próprias atribuições, por covardia política e, sobretudo, por subserviência. Não conhecem o regimento, não sabem a força que têm — e talvez saibam, mas prefiram não saber. Dá menos trabalho e é mais oportuno andar na cartilha do prefeito.
Bajulam por um orçamento é minguado, mas o preço da consciência é ainda menor. Um tapa-buraco aqui, uma emenda liberada ali, uma obra no reduto eleitoral acolá. Mas os projetos do Executivo passam em fila indiana, sem leitura, sem questionamento, sem vergonha.
As CPIs? Enfraquecidas até a inutilidade.
A transparência? Baixa, opaca, seletiva.
As ilegalidades administrativas? Normalizadas, tratadas como “jeito de governar”.
A corrupção? Sistêmica, silenciosa, educada — dessas que não gritam, mas corroem.
O discurso do “voto de gratidão” ecoa pelos corredores:
“Nunca o município cresceu tanto.”
“Os índices são os melhores.”
Crescimento para quem? Desenvolvimento para onde? Para a população, fica a promessa. Para os mesmos de sempre, o orçamento.
Mas, na terra não muito distante, o sequestro é mais sofisticado. O Executivo não apenas governa — ele escolhe a própria oposição. Pode? Aqui pode.
— “Presidente da Câmara, quero só dois. Dois vereadores para dar aquele ar democrático.”
Dois. Nem três, para não exagerar. Só o suficiente para fingir pluralidade, posar de legalidade, sustentar a encenação da impessoalidade. Uma oposição cenográfica, domesticada, dócil, cuidadosamente escolhida.
E assim, todos fingem.
Fingem legislar.
Fingem fiscalizar.
Fingem julgar contas.
Fingem instaurar CPIs.
Fingem convocar secretários.
Fingem exercer controle político e financeiro.
Os verbos continuam no papel. Na prática, viram teatro.
O preço dessa prostituição legislativa é conhecido:
liberação de emendas;
obras nos redutos eleitorais;
cargos comissionados;
indicações políticas.
Nada disso é ilegal quando isolado. Tudo se torna perverso quando vira método.
E o prejuízo para essa terra não muito distante — que não acorda entorpecida ao som de Bel Marques, Léo Santana ou Durval Lelys, mas anestesiada pela festa permanente do poder — é alto. Altíssimo.
Enquanto a população dança, a máquina pública trabalha. Não para servir, mas para perpetuar. O poder se revezando entre parentes, aliados, sobrenomes conhecidos. Uma democracia de fachada, sustentada por música alta e memória curta.
Na terra não muito distante, não falta vereador.
Falta coragem.
Falta técnica.
Falta ruptura.
E sobra fingimento.
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