A barata torcendo pelo inseticida

Uma crônica sobre colonialismo repaginado, bravatas imperiais e a resistência do multilateralismo. Há quem prefira invasão ao samba — e isso diz muito sobre o mundo em marcha-ré.

Lisdeili Nobre

1/12/20262 min read

Nos últimos dias, vivemos um momento tão singular que parecia um grande teatro surreal das relações internacionais. Em cena: alguém apertou — com força — o botão da marcha-ré.

Cena um.

Um presidente americano, sorriso de cowboy no rosto e planos de se autoproclamar “xerife das Américas”, nos fez imaginar um novo título para Donald Trump: Chefe Supremo do Hemisfério. Do outro lado do palco, um coro uníssono gritava: calma, homem! Somos países americanos — sobretudo latinos — ainda lutando para enfrentar as consequências opressoras de um colonialismo que insiste em se atualizar, trocar de roupa e fingir modernidade.

O palco gira.

No mesmo compasso, acontece uma reunião inusitada na Casa Branca. Trump chama os grandes executivos das gigantes petrolíferas e lhes oferece “total segurança” caso voltem a investir nas vastas reservas de petróleo da Venezuela — aquelas mesmas que, ironicamente, hoje são consideradas não investíveis pelas próprias empresas, diante do risco e da instabilidade.

Os investidores exibiam uma expressão curiosa: um misto de Mona Lisa com alguém pensando “a reunião já acabou ou alguém pode me tirar daqui?”. Era quase como convidar alguém para mergulhar num lago cheio de piranhas, prometer que nadar ali seria seguro… e depois estranhar quando ninguém topa o mergulho.

Enquanto isso, o presidente americano afiava o discurso — metade bravata, metade promessa de investimentos bilionários (contando com o ovo sem nem ter visto a galinha), metade diplomacia com luvas de ferro.

O palco gira de novo.

Do outro lado, outras peças do tabuleiro global se articulavam com mais calma, inteligência e eficiência. Sem drones, sem bombas, sem bravatas. A diplomacia avançava entre blocos econômicos já cansados de unilateralismos românticos. União Europeia e Mercosul costuravam, entre negociatas e olhares calculados, um corredor comercial e político capaz de gerar benefícios reais — não pela imposição de poder, mas porque o multilateralismo deixou de ser luxo para virar necessidade.

Mas foram, sem dúvida, dias inusitados, daqueles em que a geopolítica vira meme da vida real.

Enquanto o multilateralismo ganhava força — porque ninguém quer ser puxado por uma única corda — houve quem, de forma espantosa, sonhasse em ser invadido também. Como se o Brasil pudesse virar quintal do sonho americano. Fiquei imaginando: a Bahia dos cacaueiros transformada em enfeite no jardim do Norte.

Por aqui, na praça das redes sociais — e eu escutando, porque ser é melhor do que ser surda — ouvi gente dizendo que invasão armada seria melhor do que samba e cerveja gelada. E pensei comigo: Mas invasão para atender o sonho americano? Isso aí nem novela mexicana explica.
Era como a barata torcendo pelo inseticida: totalmente sem lógica.

Enquanto a América tenta reinventar a Doutrina Monroe em versão hard power, com operações militares, pressões econômicas e bravatas dignas de roteiro de filme de ação, muitos povos e governos americanos seguem lutando por autonomia, soberania e por um mapa político que não seja desenhado pela mão de outro.

E nós? Ficamos aqui pensando se alguém vai inventar um curso de História da Marcha-Ré para explicar como chegamos até aqui. Ser parceiro econômico com soberania e autonomia não é lavar a latrina americana — ser parceiro comercial é outra coisa.

Porque nós, brasileiros genuínos, apreciamos nosso clima de festa, nossa cerveja gelada e nosso samba.
E, sinceramente… quem não prefere a alegria do samba à opressão?